Capítulo 1
Morte!
E a morte surgiu e sorriu por detrás dela sussurrando em seus ouvidos:
_Vamos, é chegada a sua hora, você não pertence mais a este plano!
Pietra, então, inspirou e encheu seus pulmões de ar, prendeu a respiração, fechou os olhos, abriu os braços e se lançou ribanceira abaixo.
A Morte sorriu e num gesto suave e doce estendeu-lhe os gélidos metacarpos em sinal de apoio. Aquilo tudo era incrivelmente assustador.
_ Hora de partir! Disse a Morte com voz suave como se morrer fosse algo encantador.
Ainda atordoada e confusa, Pietra se agarrou àquela criatura sombria que mesmo sem semblante definido lhe transmitia alguma sensação de tranqüilidade. Dali fora levada para um lugar sem formas, sem delimitações de espaço, era um vácuo "negro e profundo", podia-se afirmar que era o próprio Nada.
Pietra entrou num estado que parecia um sono profundo. Quando voltou a si vislumbrou todas as histórias de sua vida sendo reprojetadas bem diante de seus olhos. Imensamente assustada por presenciar tudo aquilo ela não conseguia controlar nenhuma das emoções que lhe sobrevinham à alma. Subtamente começou a cair novamente. Agora caía para dentro do infinito.
Diante da sensação de pavor e medo e após tentar diversas vezes, frustradamente, interromper a queda, Pietra se entregou a gritos de desespero. A queda era infinita, era um verdadeiro abismo, igual aqueles dos sonhos em que nunca se chega a tocar o chão.
Confusa e cansada, Pietra decidiu não mais lutar contra a queda, esperançava cair até chegar a algum lugar que pudesse finalmente fazer com que todo aquele horror desaparecesse, porém a visualização das imagens de suas experiências de vida continuava de forma aleatória, mas se sobrepondo umas as outras e suas lembranças questionavam sobre as imagens que lhe pareciam distorcidas da realidade vivida.
Aos poucos começou a se tranqüilizar e permitiu que todo aquele infinito se manifestasse diante de si. Ouviu vozes de pessoas cantarolando, tambores e diversos outros sons que se misturavam e que, de alguma forma, lhe acalmavam o espírito.
Ouviu sorrisos e gargalhadas. Gritos e prantos.
De repente tudo cessou. Os sons e todas as imagens desapareceram dando lugar a um silêncio e um negrume mórbidos. A queda finalmente terminou e, surpresa, Pietra começou a flutuar em meio a imensidão daquele lugar. Desconcertada e incerta do que fazer, apenas fechou os olhos e iniciou exercícios de respiração. Quando se acalmou, resolveu entender o que estava realmente acontecendo consigo.
_ Estou morta?! Mas como é possível estar consciente de tudo ainda? Acho que é hora de descobrir o que está acontecendo e saber que mundo é esse!
Olhou, olhou e nada visualizou a sua volta.
_ Tem alguém aqui além de mim?
_ Alguém pode me dizer onde estou, que mundo é este?
Silêncio total, ninguém respondia absolutamente nada.
Nada acontecia e assim permaneceu por longo tempo.
Dois soluços e seus olhos encheram-se de lágrimas. Estava sozinha, perdida no infinito e não sabia nada do que poderia lhe acontecer naquele lugar. Resolveu se acalmar e esperar mais um pouco. Reiniciou os exercícios de respiração e caiu em um novo transe.
_ Olá, alguém aí? Perguntou mais uma vez com entonação fraca e descrente de obter qualquer resposta que fosse.
_Olá minha querida, o que está fazendo? Uma voz suave lhe perguntou.
_Não sei ao certo, acho que vim da vida e agora estou morta.
_Talvez! Disse a voz em resposta. _Já se questionou que talvez você estivesse morta e que, agora sim, está seguindo para a Vida?
_Não, não houve tempo de pensar em nada. Este lugar agora está tão vazio, mas antes tudo estava tão confuso, eu podia ver todas as minhas experiências vividas através de imagens refletidas no vácuo. Muitas delas estavam distorcidas, outras eu se quer me recordava. Mas o que é esse lugar?
_Não há uma definição conclusiva sobre este lugar, você pode nomeá-lo como preferir ou mais lhe agradar.
_Entendo! Disse Pietra bastante entristecida. Ficarei aqui sozinha para sempre?
_Ninguém nunca está sozinho, tão pouco vive para a eternidade sob a mesma forma. Tudo tem um tempo certo e sempre chega a um final. Nascimento, vida e morte estão sempre no mesmo processo atemporal.
_Então devem estar me preparando para uma nova vida e estas imagens que vi, incluindo aquelas que me atormentaram por tantos anos devem estar sendo deletadas da minha memória, assim poderei renascer sem resquícios das experiências passadas. Estou num processo de limpeza da alma, é isso?
_Se for da sua vontade, então que seja!
_Para onde será que vou? Será que terei uma chance de viver uma vida diferente daquela que eu vivia?
_Todos temos a chance de mudar nossas vidas enquanto vivos. A morte é só uma passagem que não lhe provê nenhuma garantia sobre absolutamente nada. O que está do lado de lá ou do lado de cá se equivale quando você está exatamente no meio do caminho entre um e outro.
_Não compreendo, então, não estão desmemorizando todo o histórico da minha vida?
_Eu lhe disse que este lugar pode ser o que você quiser que seja!
_Então deve ser um pesadelo!
_Ou um sonho se você preferir!
_Mas aqui não tem nada além de mim e de “ouvir você”, como posso transformar isso aqui num sonho?
_Use sua capacidade perceptiva, não cheguei simplesmente do nada, você me criou. Da mesma forma que conseguiu interromper a queda e agora consegue flutuar nesta imensidão.
_Sim, às vezes, eu alterava meus sonhos quando eram lúcidos. Talvez eu consiga fazer aqui também! Mas como assim, eu criei você? Que história é essa? Hey, aonde você está, não me deixe aqui sozinha?
Ninguém respondeu e o silêncio voltou a reinar. Pietra estava sozinha novamente, porém mais calma e disposta a redesenhar o infinito.