Parte III
Recobrando os Sentidos!
Um manto negro com inúmeros pontos de luz cintilante foi a primeira imagem que visualizou. A sensação era de tontura e embriaguez e aquela imagem do céu parecia-lhe um sonho. Já era tarde da noite e o vento gelado e cortante mais o gosto salgado em sua boca contribuíram para que Pietra, aos poucos, recobrasse os sentidos.
_Onde estou? O que aconteceu?
De repente as fortes ondas da maré alta a arremessaram sobre as rochas. Pietra se contorceu de dor e lutou para não cair no mar. Seu corpo estava todo dolorido e com diversas escoriações, porém nenhum osso havia se quebrado. Com muito esforço escalou a ribanceira até chegar ao solo e avistar o Farol um pouco mais adiante. Caminhou alguns passos e caiu de joelhos encolhendo o seu corpo até o chão onde chorou soluçosamente durante alguns minutos.
Passado algum tempo, Pietra se levantou e seguiu a estrada rumo ao seu lar. O frio intenso e a roupa molhada que pesava ainda mais sobre o seu corpo dificultavam todos os seus movimentos. Em certa parte do caminho um velho carroceiro a avistou, surpreso por já ser tarde da noite e imaginando o que poderia ter acontecido ofereceu-lhe ajuda.
_Moça, o que aconteceu com você, está ferida?
_Quero apenas ir para casa! Respondeu Pietra com voz chorosa.
_ Alguém a atacou? Podemos ir direto às autoridades se quiser.
_Não! Quero apenas ir pra casa!
_Tudo bem, deixe que eu a leve então, afinal está muito frio, você está toda molhada e muito machucada. Deixe que eu a leve para sua casa onde possa ser cuidada por alguém.
Ela parou de caminhar, sabia que não havia ninguém em casa, mas estava tão dolorida e exausta que talvez não conseguisse chegar sozinha. Pietra olhou bem no fundo dos olhos do carroceiro por alguns segundos e consentiu acenando a cabeça.
A essa altura, Pietra já estava em estado de hipotermia, as dores pelo corpo aumentavam a cada segundo e não haviam mais forças para subir na carroça. Aquele senhor de coração gentil, percebendo a tremedeira e a palidez em seu rosto ofereceu-lhe antes uma dose de conhaque para que pudesse aumentar a temperatura do corpo, depois a envolveu em um cobertor velho bastante empoeirado e acomodou em sua carroça.
Seguiram por todo o caminho em silêncio. Nenhuma palavra foi trocada. Para indicar o caminho ela apenas gesticulava e o carroceiro seguia os seus sinais sem contestar.
Já em casa, Pietra tirou suas roupas molhadas, bebeu todo o conteúdo de uma garrafa de vinho enquanto aquecia a água para tomar um banho quente. Não conseguiu pensar em nada naquele momento, nada fazia sentido e não havia nem mesmo a certeza de que estava realmente viva. Apesar da imensa dor no corpo que sentia tudo parecia irreal, era como se estivesse sonhando. Após tomar o banho vestiu uma roupa quente, deitou na cama sob a luz de uma vela e em seguida dormiu.
Ao acordar no dia seguinte, percebeu que tudo estava exatamente como havia deixado antes de ir ao Farol. Virou-se para a janela e permaneceu deitada visualizando o dia ensolarado que fazia lá fora. Nenhum sentimento se manifestou naquele momento. Apesar de já ter recobrado a memória sobre todos os acontecimentos, nenhuma emoção se manifestava em seu íntimo, nenhum pensamento, sua mente estava em pleno silêncio.
Passaram-se dois dias e Pietra não saiu de casa uma única vez se quer. De seus aposentos só levantou para satisfazer suas necessidades fisiológicas. Dormiu todo o tempo que lhe foi possível, pois pela primeira vez em sua vida estava tendo tranqüilidade em seus sonos. Não havia qualquer manifesto de emoções ou dos fantasmas do passado.
No dia seguinte, Pietra despertou no momento em que o sol nascia e de sua janela admirou a beleza daquele evento. Levantou de sua cama, tomou um banho frio e depois vestiu um de seus longos vestidos. Seu corpo estava cheio de hematomas e ainda doía muito. Tomou um chá de ervas frescas e depois saiu para o centro da cidade onde habitava.
Estava quente e Pietra resolveu se refrescar nas águas do chafariz da Matriz, molhou seus punhos e seu rosto, depois sentou num dos bancos enquanto os respingos refrescantes de água caiam-lhe sobre o corpo. Ali ficou refletindo sobre sua última experiência. Agora sim, pensava sobre tudo o que havia acontecido.
_Tive um sonho absurdamente louco enquanto estava inconsciente da queda. Será que estive realmente diante da Morte? De quem era aquela voz que me dizia o que fazer?
Enquanto refletia, uma senhora se aproximou de Pietra.
_Bom dia, sou uma viajante e estou a procura de pousadas na região, poderia indicar-me alguma?
Aquela senhora portava apenas uma maleta média e uma bolsa pequena. Suas vestimentas eram simples e desgastadas pelo uso, Pietra presumiu que ela não possuía muito dinheiro e resolveu indicar-lhe a pensão de uma amiga.
_Há poucas pousadas nesta cidade e são muito caras. Conheço uma pensão onde uma amiga trata muito bem de seus clientes e o ambiente é bem familiar. Se desejar, posso acompanhá-la até o local?
_Sim, eu apreciaria muito conhecer essa pensão, certamente me sentiria mais a vontade num ambiente como esse. Como se chama, minha querida?
_Meu nome é Pietra!
_Muito prazer, meu nome é Zózima!
E as duas se dirigiram à pensão da tão conhecida Dona Henriqueta.
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