terça-feira, 2 de abril de 2013

(Seu) Zé!

(Seu) Zé era um negro franzino de  menos de 1,50m de altura, acima dos 70 anos que sempre usava calças e botinas de pular brejo, suspensórios, camisão surrado e um chapéu de palha. Lembrava muito o preto velho, mas o arquétipo deste segundo apesar de carismático era um pouco assustador naquela época,  já o (Seu) Zé, ahhh sim, este era simplesmente apaixonante.

(Seu) Zé era dono de um coração tão grande, mas tão grande que o transformava num homem gigantesco, forte e muitíssimo querido por todos.

Era o zelador do colégio onde cursei o ginásio.

Em suma era o pai de todos, cuidava de todo mundo: dos mais rebeldes aos mais comportados. Sabia de todos os nossos problemas, dos nossos namoricos, dos nossos atos duvidosos. Tudo o que fazia para nos moderar era conversar amistosamente e se portar como um grande amigo que se doava aos outros. E todo mundo se preocupava em não decepcioná-lo, mas adolescente que éramos, é claro que aprontávamos vez ou outra, mas nos esforçávamos muito para não chatéa-lo com nossos atos.

Ele morava sozinho num quartinho cedido pelo colégio. Não recordo se ele tinha família, acredito que não, ao menos nunca vi ninguém visitá-lo, mas apesar de  sozinho ele não me parecia uma pessoa solitária, ao contrário disso, ele era extremamente solidário e feliz. Além disso, ninguém o deixava em paz, sempre tinha um ou "um bando" de alunos em torno dele, fora os funcionários do colégio que sempre o requisitavam também.

Lembro-me que certa manhã de sábado nosso time não tinha como treinar Handebol por falta de quadras disponíveis no bairro, então decidimos pular o portão para treinar na quadra do colégio. Quando o (Seu) Zé nos ouviu, saiu correndo com a chave dizendo:_"Não, não, minhas meninas, não precisam fazer isso. Não pulem por favor, eu abro o portão para vocês, só me prometam não bagunçar nada e nem levar nada embora!" Treinamos e nos divertimos o dia inteiro, ele até nos fez um lanchinho pra não passarmos mal e ficou ali conosco, nos assistindo e nos alegrando com seu carinho.

No dia do meu aniversário eu estava muito triste por problemas famíliares e para aumento da minha tristeza este também era o dia da despedida da minha turma do colégio, estava prestes a perder o contato com meus melhores amigos. Mas, para minha surpresa, a turma e os professores fizeram um bolo para comemorar os meus 15 anos, depois da cantoria aquilo tudo acabou virando uma super festa de despedida da 8ª série. Eu recebi muitos abraços apertados neste dia "07/12/1989" e todos foram muito importantes para mim, mas o mais carinhoso, o mais terno, aquele que eu mais precisava, veio do colo daquele baixinho gigante.

Mesmo quando mudei de colégio, eu e uma amiga ainda tivemos o privilégio de encontrá-lo diversas vezes pela R. Marechal Deodoro em SBCampo e toda vez, sem exceção, ele nos levava para comer esfirra aberta e bater um papo numa das melhores lanchonetes desse endereço. Ficávamos um longo tempo conversando sobre tudo.
Quando este querido homenzinho veio a  falecer a tristeza foi enorme, todos que o conheciam foram velar o seu corpo e dar um último adeus. Eu não pude estar presente nesse dia e mesmo que estivesse em condições eu não teria coragem de vê-lo deitado num caixão. Mas aproveito o dia de hoje para manifestar minha admiração e carinho:

(Seu) Zé, saudades imensas de você e que o tempo jamais me prive de tê-lo em meu coração e em minhas lembranças!

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